As cores que habitam a Serra

Quando pensamos em aguarelas, imaginamos caixas de tinta organizadas por cores. Raramente pensamos na terra sob os nossos pés. No entanto, durante milhares de anos, foi precisamente a paisagem que forneceu as cores utilizadas para pintar. Argilas, óxidos de ferro, carvão vegetal e diferentes minerais eram recolhidos e transformados em pigmentos que deram origem às primeiras manifestações artísticas da humanidade. Ainda hoje, cada território possui uma identidade cromática própria. A geologia influencia as tonalidades da terra, das rochas e até da vegetação, criando uma paleta única que conta a história desse lugar. Trabalhar com pigmentos naturais é, por isso, muito mais do que produzir tinta. É aprender a observar a paisagem com outros olhos. Uma caminhada deixa de ser apenas um percurso na natureza para se tornar uma descoberta de cores, texturas e materiais. Cada pedra pode esconder um ocre intenso; um solo argiloso pode revelar tons dourados ou avermelhados. Este processo convida-nos também a refletir sobre a origem dos materiais que utilizamos. Numa época em que quase tudo chega pronto a usar, voltar a preparar uma cor a partir da terra é uma forma de recuperar o ritmo lento do fazer manual e compreender a profunda ligação entre criatividade e natureza. Na Serra da Lousã, esta relação torna-se particularmente evidente. A diversidade geológica da região oferece uma riqueza de pigmentos que permite criar uma paleta inspirada exclusivamente na paisagem envolvente, transformando o próprio território numa fonte de expressão artística. É precisamente esta experiência que inspira o workshop Tons da Serra da Lousã, orientado por Marta Rodrigues, onde os participantes aprendem a descobrir, preparar e utilizar pigmentos naturais, explorando uma forma de criar que começa muito antes do primeiro pincel tocar no papel.

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